domingo, 26 de setembro de 2010

QUAL O TÊNIS CERTO PARA O MEU TIPO DE PISADA?

Você já ouviu falar em pisada pronada, supinada e neutra? 

Pode parecer simples identificar qual é a sua e escolher o tênis certo. Mas, para garantir os melhores resultados, é preciso ir além…


 

A pisada é resultado de todo um corpo em movimento, e não é de se admirar que cada um tenha a sua. 

Afinal, são inúmeras as combinações entre ângulos de quadris, joelhos, formatos de pés. A indústria de calçados esportivos percebeu isso e determinou três tipos, fabricando seus tênis para pisadas pronadas, supinadas e neutras, com especificações suficientes para atender às necessidades da grande maioria.

Escolher o tênis de acordo com a pisada deveria ser uma das primeiras providências de um corredor, já que o estresse que a modalidade provoca aos pés, passada após passada, é maior que em qualquer outra modalidade. Usar um calçado inadequado pode levar desde a entorses até desequilíbrios musculares em demais regiões do corpo, não apenas nos pés.

Os tênis, efetivamente, não corrigem a pisada. Eles são projetados para se adaptar melhor à maneira como o corredor pisa. 

“As estruturas de um calçado especializado 
fazem com que a corrida fique mais confortável 
e com menores chances de lesões."


Ou seja, "se um corredor com uma característica de pronação severa concentra a maior parte de seu peso na parte interna dos pés ao longo de toda a sua pisada (pouso, rolagem e propulsão); caso ele não use um tênis para atender essa característica, o mesmo cederá o quanto o corredor exigir. 

Em um calçado especializado, colocamos uma espuma rígida na parte interna da entressola, parte que está entre o solado e o cabedal, para oferecer suporte e impedir que ele ceda, exigindo menos dos ossos, músculos e ligamentos”, explica Christiano Coelho, gerente de marketing para corrida da Nike. “No caso do supinador, o que buscamos é colocar um alto nível de amortecimento para suavizar a concentração de peso que é colocada na parte externa, que é plana, chapada.”


O problema do calçado ceder é justamente perder sua função prioritária para o corredor: o amortecimento. 

“Hoje sabemos que
a absorção de impacto 
que a maior parte dos tênis de corrida tem 
é o mais importante 
fator que previne lesão."


"Ainda não temos certeza se o tênis corrige ou não a pisada completamente, mas o que podemos dizer é que ajuda, e muito. 
Trato frequentemente atletas de corrida no consultório, e observamos que muitos deles melhoram quando se recomenda um tênis adequado para o tipo de pisada. Como em tudo na medicina, isso não é uma regra geral, mas podemos ter este aliado nosso, sim, no tratamento”, avalia Rogerio Teixeira da Silva, coordenador do Núcleo de Estudos em Esportes e Ortopedia e consultor médico da Asics.

Se a pisada é pronada, o tênis precisa de apoio medial mais reforçado, pois os pés pronados são muito móveis e necessitam maior suporte. Já para os pés neutros e supinados o mais importante é a absorção de impacto. O detalhe dos supinadores é que estes apresentam pés extremamente rígidos, o que aumenta a chance de lesões ósseas por sobrecarga.


Carga pesada
As lesões por sobrecarga, inclusive, encabeçam a lista dos males que acometem quem escolhe o tênis mais pela beleza do que por qualquer outro requesito. “O resutado são basicamente essas lesões (como as fraturas por estresse) e as tendinites crônicas. Principalmente na área do tornozelo, região em que a tendinite de Aquiles é o que mais encontramos nestes atletas, juntamente com a inflamação da planta do pé (fasciíte plantar)”, lista Silva.


Não arrisque
Pensando que são três tipos de pisada, digamos que haja 33% de chance do tênis bonito ser o certo para o seu pé, mas não há muito lucro em apostar. 

O que aconteceria 
com um pronador
que escolhe o modelo
neutro ou para supinador?

“Se ele for um pronador leve, não terá muitos problemas. Se a sua pronação for exagerada, pode ser que o tênis para supinador/neutro não estabilize de forma adequada a parte de dentro do pé, fazendo com que o pé se movimente muito. Isso, a longo prazo, pode ser ruim para o corredor, e propiciar lesões no tornozelo e joelho”, aponta Silva. “Pelo fato do tênis de supinador não ter essa espuma rígida, ele acaba cedendo e faz que o corredor se apoie mais nessa parte interna, alem de exigir mais das estruturas musculares e ósseas. Portanto, quanto maior o volume de corrida, maior a chance de lesão”, completa Coelho.


Outro complicador é o fato das marcas utilizarem tecnologias distintas. Então, depois de acertar na pisada, o próximo desafio é ir experimentando até chegar no seu modelo ideal.


Mas qual a minha pisada?
Cada dia os testes de pisada estão mais acessíveis, chegando até às lojas de material esportivo. Mas nada se compara à estrutura de uma clínica de fisioterapia ou ortopedia. 

“O tipo de pisada deve ser observado 
sempre de forma estática e dinâmica,"

"portanto, desconfie de exames que relacionem diretamente o formato do pé com a pisada. Ter um pé cavo é uma coisa, uma pisada supinada é outra. “Cavo e plano são definições com relação à parte estática do pé durante o apoio. Pronado e supinado são definições que somente podem ser usadas para avaliações dinâmicas do pé (quando vemos o atleta correndo)”, contextualiza Silva. “Os testes estáticos basicamente observam os eixos do joelho e tornozelo, e a impressão da planta do pé, determinando se o pé é cavo ou plano (conhecido também como pé chato). 

Os testes dinâmicos são os mais importantes, pois observamos com isso o quanto a corrida modifica a angulação dos ossos e articulações, e o quanto isso implicará na recomendação do calçado adequado para a corrida.”


O problema é que, nas lojas, dificilmente é feito o teste dinâmico. “Assim fica muito difícil obter o resultado completo. Não é raro pegarmos no consultório testes inadequados feitos em lojas. O que deve ser lembrado é que algumas lojas fazem bons testes, tanto estáticos quanto dinâmicos, mas isso não é a regra geral de lojas onde o volume de vendas é muito grande e inespecífico para o esportista”, alerta o médico.


Fernando Assunção, fisioterapeuta e sócio da Total 1 Fisioterapia, classifica essa prática de ‘pseudo-teste’. “Eles são realizados em condições inadequadas. Por exemplo, eu já presenciei testes em que era colocada uma câmera de vídeo na parte posterior de uma esteira e era analisado o tipo de pisada desta pessoa, sem uma avaliação precisa das pressões exercidas em cada parte da planta do pé”, conta.


Portanto, são dois exames que o corredor deve cobrar. Primeiro, a avaliação estática, o que pode ser feita por um exame chamado podoscopia, em que o atleta pisa em um podoscópio e se fotografa o tipo de impressão plantar. Depois vem a avaliação dinâmica, que consiste na gravação em vídeo do corredor em ação numa espécie de esteira especial. Em alguns locais, são colocados sensores em várias partes do corpo, que mostrarão, além da pisada, possíveis desvios posturais. 

“O teste é realizado em uma plataforma de pressão, 
chamada baropodômetro, que é acoplada a um computador." 



Esta plataforma envia com precisão todo o contato da planta do pé com o solo, inclusive a quantidade de pressão que é exercida em cada parte da planta do pé”, explica Assunção.
Ainda assim o resultado pode confundir. Há quem tenha um tipo de pisada para cada pé. “Devemos escolher sempre o lado pronador. Quando um pé é neutro e outro pronador, comprar tênis para pronador”, avisa Silva. O mesmo vale para o supinador.
Casos extremos
Geralmente, quem adequa seu tênis à pisada sente mais facilidade para correr e fica mais prevenido contra lesões. Mas sempre há exceções. Para estes casos, a indicação é customizar palmilhas específicas para sua pisada. “A maior parte das marcas de calçados esportivos desenvolve pesquisas justamente pensando nisso, para que os tênis já previnam lesões, principalmente quando falamos do conceito de absorção de impacto. 

Acredito que aumentar ainda mais o custo para o corredor não é necessário, a não ser que ele tenha lesões mesmo com o uso de tênis adequados”, acredita Silva.

Para Assunção, no entanto, todos poderiam se beneficiar de palmilhas específicas. “Cada indivíduo é único, tanto no seu DNA quanto a seu tipo de pisada, e vou mais além, cada pé de um mesmo indivíduo tem a sua pisada particular, por isso sou totalmente contra a fabricação e a prescrição indevida feita por vendedores, pela compra de um tênis que oferece uma pisada pronada ou supinada. 

Acho que todos os atletas deveriam passar por uma avaliação com um fisioterapeuta especializado, pois se ele não possui nenhum quadro de lesão, com certeza o uso da palmilha lhe dará mais longevidade no esporte e agirá de forma preventiva no caso de alguma lesão”, sentencia.

Para o profissional, a tecnologia dos tênis simplesmente não é eficaz da mesma forma para todos. “Os tênis ‘inteligentes’ encontrados no mercado hoje em dia tentam fazer de forma genérica o que o uso de uma palmilha faz, mas não de forma individualizada, com parâmetros específicos e uma avaliação criteriosa. Um outro detalhe importante é que na minha experiência pude notar que nenhuma pisada é simétrica, por isso cada palmilha tem que ser única para cada pé de um mesmo indivíduo. Outro ponto importante é que nem sempre o problema é a forma da pisada (se é pronada ou supinada); a estabilidade do pé conta muito, o tônus da musculatura da fascia plantar também pode ter bastante influência em alguns problemas”, explica Assunção, que vê utilidade das palmilhas até para quem não sente dores. “O uso das palmilhas proprioceptivas não tratam somente problemas relacionados a dores nos pés. Problemas na coluna, quadril e joelhos podem ser corrigidos também.”

Os tipos de pisada
 A avaliação leva em conta o conjunto entre o formato do pé e a angulação e movimentação do tornozelo durante a passada. Isso vai influir na pressão que o atleta vai incidir no solado, por isso a diferença entre um tênis para pronador, neutro ou supinador é basicamente voltada às àreas de maior amortecimento.
> Pronação: quando o corredor pisa com a parte de fora do pé e depois rola para dentro;
> Supinação: quando o corredor pisa com a parte de dentro do pé e depois rola para fora;
> Neutro: quando se inicia o contato com o solo do lado externo do calcanhar e então ocorre uma rotação moderada para dentro, terminando a passada no centro da planta do pé.
Por Julianne Cerasoli
 REVISTA CORREDORES S/A

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